A aproximação entre Abraham Palatnik (Natal, 1928 – Rio de Janeiro, 2020) e Juan Parada (Curitiba, 1978) reverbera uma interlocução que atravessa o tempo. O encontro entre os artistas converge em um diálogo transgeracional que investiga cinetismo, luz e matéria.
Os rumos da história da arte foram recalculados pela presença de Abraham Palatnik, ao lado de Jesús Rafael Soto e Carlos Cruz-Diez. O grupo ocupa um lugar fundamental e fundador na arte cinética latino-americana ao potencializar o artesanal e a utilização de suportes pouco convencionais nas artes visuais. Os aparelhos cinecromáticos de Palatnik - estruturas de motores e luzes - obtiveram grande reconhecimento, tendo inclusive participado da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, com menção especial do júri internacional. Mário Pedrosa afirmou certa vez que Palatnik quis intervir nas metamorfoses do caleidoscópio para dirigir essas formas num sentido plástico.
Diante da amplitude de sua dimensão matérica, Palatnik também realizou obras que dispensam a utilização de dispositivos eletrônicos e simulam o movimento na projeção de camadas e sombras. As progressões de Palatnik se desdobram nos jacarandá, em ripas de madeira da série W, em cartões e no uso de resina poliéster, em sequências que formam ritmicamente a volumetria, desenvolvendo uma operação reticular que desenha paisagens orgânicas e ondulantes.
Há um diálogo com a poética de Juan Parada, que desenvolve sua pesquisa em cerâmica e escultura há mais de duas décadas. Ao longo de sua trajetória de pesquisa, afinou seu conhecimento técnico, como quando em 2016, realizou uma residência artística no Jingdezhen International Studio na China e posteriormente na Holanda, em 2022, no European Ceramic Workcentre em Oisterwijk. Os artistas apresentam uma dinâmica visual em ressonância, em um ritmo progressivo da forma na criação de relevos e volumetria, evidenciando a destreza técnica somada a reinvenção da linguagem.
Em Parada, a luz incide de modos diversos sobre as topografias em cerâmica e gera multiplicação de formas. O artista explora um amplo repertório de esmaltes que podem ser acetinados, cristalinos, reativos ou metálicos, e denotam nuances de aspecto da superfície, culminando em uma mobilização dinâmica do olhar. A argila opera oticamente, em que a luz perpassa todas as formações em suas cavidades e reentrâncias.
O processo da feitura do relevo em cerâmica demonstra uma série de agentes em colaboração - argila, esmaltes, temperatura, tempo e atmosfera do forno. Parada compreende a cerâmica não somente como a realização de uma técnica ancestral, mas como um sistema matérico complexo, investigando as condições pelas quais a forma emerge e atravessa processos contínuos de transformação e reorganização. Diante dessa tecnologia ancestral, o artista nomeia seu processo de “anti-cerâmica”, não como uma negação, mas como uma referência ao deslocamento da cerâmica do campo da representação para o campo dos sistemas, estabelecendo uma parceria profícua com a matéria. O conceito da prática de Parada é próxima de um acontecimento, em que a obra é um sistema em transformação, cada uma das peças na composição se refere ao instante em que diferentes forças materiais encontram uma configuração temporária.
Em Palatnik e Parada nenhum processo e sistema pode ser descrito por relações lineares de causa e efeito, são atuantes e habitam o território do devir e da variabilidade. Ambos constroem sistemas completos/complexos em produção de sentido. A matemática e a precisão constroem sistemas virtuais, mas é na matéria que nos deparamos com a dimensão física e temporal dos artistas, desvelando seus desvios.
Mariane Beline

