É pela linha que se desenha: geometrias latino-americanas
Esta exposição reúne artistas de diferentes gerações, provenientes de várias regiões do continente americano. Muitas dessas obras compartilham um impulso por explorar e reinventar as linguagens da modernidade – como a abstração ou a geometria – para deslocá-las para coordenadas culturais e iconografias locais, descentrando o olhar eurocêntrico. Outras revalorizam técnicas manuais transmitidas através de gerações, onde o tecido, o bordado, o fio e a fibra carregam uma profunda memória cultural. Nesse encontro íntimo entre a mão e os materiais orgânicos estabelece-se uma importante forma de escuta e conhecimento.
Mas, além das afinidades formais ou materiais, as obras dos artistas aqui reunidos – Carmelo Arden Quin, Olga de Amaral, Eamon Ore-Giron, Maria Leontina, Eduardo Terrazas, Ana Teresa Barboza e Mano Penalva – compartilham uma profunda convicção de que a arte permite imaginar e representar diferentes modelos do mundo. Várias dessas obras refletem imagens de um cosmos particular que conecta o sideral com o terrestre, que olham simultaneamente para os ciclos celestes e para a gestão cotidiana da vida.
A exposição abrange quase um século de produção artística – a obra mais antiga é de 1948 e a mais recente de 2025 – e propõe uma leitura em duas escalas que se entrelaçam: por um lado, uma perspectiva cósmica que busca sentir o espaço e o tempo a partir de dimensões que transcendem o humano; por outro, um olhar microscópico e atento ao pequeno: a fibra, a partícula, a raiz ou o cabelo. Nessa oscilação entre o vasto e o íntimo, desenha-se a intuição de que a única maneira de compreender o que acontece aqui embaixo é aprender a olhar além do céu.
Em meados do século XX, diversos artistas se empenharam em renovar as linguagens artísticas, explorando a abstração geométrica em diálogo – explícito ou latente – com as transformações sociais e culturais. Nesse contexto, foram incluídas novas perspectivas científicas, como a física e a matemática, que abriram novas formas de pensar a matéria, a energia e as forças que estruturam o universo. Nos anos 1940 e 1950, Carmelo Arden Quin (Rivera, Uruguai, 1913 – Savigny-sur-Orge, França, 2010) e Maria Leontina (São Paulo, 1917 – Rio de Janeiro, 1984) desenvolveram proposições nas quais a forma geométrica adquire presença espacial. Em várias obras dos anos 1940 e 1950, Arden Quin imagina paisagens cotidianas, exemplificadas em “El Gato I / Círculo y triángulo” (1948), mas também cenários cósmicos. Por exemplo, “Transparence” (1956) pode ser interpretada como uma constelação de círculos, retângulos e polígonos que aludem tanto a uma cidade estelar quanto a um cosmos fragmentado em miniatura. Sua obra “Móbile” (1952) reforça essa visão: um pequeno sistema de corpos celestes que aludem a um equilíbrio dinâmico. Por outro lado, as composições de Leontina, como “Os jogos e os enigmas” (1954) ou “De paisagem e de tempo” (1956), articulam planos retos e linhas oblíquas, que sugerem movimento, distorções do espaço-tempo e forças invisíveis que sustentam as estruturas. Em ambos os casos, trata-se de obras que exploram as tensões entre superfície, vazio e estrutura, questionando o que significa ocupar um lugar no espaço.
Em obras recentes, Eamon Ore-Giron (Tucson, EUA, 1973) e Eduardo Terrazas (Guadalajara, México, 1936) exploram o cosmos a partir de perspectivas enraizadas nas tradições ameríndias. Ore-Giron, de ascendência peruana, desenvolve composições circulares que remetem a mapas astrais, calendários solares e lunares e formas provenientes de civilizações pré-colombianas do sul da América. Na sua série “Infinite Regress”, o tempo é representado como cíclico, em sintonia com a noção andina "pacha" – termo quéchua que expressa simultaneamente espaço e tempo –, onde passado e presente fazem parte de uma mesma compreensão temporal não evolutiva nem linear, mas em contínuo retorno. Suas pinturas revelam um espaço expansivo por meio de linhas horizontais e estruturas circulares, evocando como grande parte da arquitetura andina existe em diálogo entre a terra, a luz solar e os corpos. Por sua vez, Terrazas funde formas de artesanato mexicano com geometria modernista. Em sua série “Cosmic Variations” (uma expansão de seu projeto Possibilities of a Structure – Cosmos, iniciado na década de 1970), ele combina técnicas da arte huichol, usando fios de lã, cera de Campeche e madeira, para compor imagens vibrantes que representam estruturas estelares, órbitas e planetas. Afim aos efeitos ópticos e geométricos vibratórios, a série “Ventana” do artista brasileiro Mano Penalva (Salvador, 1987) se destaca por criar portais de percepção. Montadas com fitas de nylon, varas de madeira multicoloridas e esmalte, suas esculturas desafiam um único ponto de vista: convidam o espectador a contorná-las e se deslocar diante delas. Essas obras funcionam como interfaces entre dimensões: o que se oculta e se revela diante dos nossos olhos ressalta um tempo que não se move em linha reta e uma profundidade oculta em toda superfície.
Ao contrário das explorações cósmicas – embora em sintonia com elas –, as obras de Olga de Amaral (Bogotá, 1932) e Ana Teresa Barboza (Lima, 1981) estão ancoradas no orgânico, no material e no terrestre. Em vez de olhar para o céu, suas poéticas surgem do coração dos universos animal, vegetal e mineral. Desde os anos 1960, Amaral explora as possibilidades expressivas da fibra e do tecido, criando formas esculturais sensoriais. Sua obra estabelece um diálogo com as texturas e formas dos tecidos pré-colombianos, incorporando materiais como corantes naturais, folha de ouro ou crina de cavalo, e evocando paisagens, monumentos e objetos rituais. Suas peças se apresentam como forças que habitam o espaço de forma contundente e silenciosa. Barboza, por sua vez, elabora esculturas têxteis que traçam uma continuidade entre o vegetal e o mineral. Suas obras remetem a mapas e topografias que não respondem à lógica estatal ou às fronteiras políticas do Estado-nação, mas sim às forças geológicas e biológicas do território: a força dos rios, dos solos e dos fluxos de água e matéria que moldaram a Terra desde tempos imemoriais. Em algumas peças, a artista chega a registrar a origem geográfica dos corantes vegetais utilizados. Em suas mãos, o tecido se transforma em casca, marca e sedimento, revelando uma história geológica e biológica anterior à presença humana. Barboza nos lembra que tecer é uma forma de ouvir o passado e falar com a Terra.
As obras reunidas em “É pela linha que se desenha: geometrias latino-americanas” não apenas representam modelos do mundo, mas também o fazem existir de outra maneira. Entre o cósmico e o terreno, essas peças ensaiam formas de se reconectar com dimensões filosóficas vitais que o pensamento moderno ocidental fragmentou: a relação entre os astros e as sementes, entre os corpos e os planetas, entre a energia e a forma. Ao fazer isso, elas reivindicam a força da arte para participar de uma conversa em que o espiritual, o ecológico e o material não estão separados, mas novamente entrelaçados como parte de um mesmo tecido de existência coletiva.
Miguel A. López