O corpo e o gesto constituem territórios de experiência, memória e invenção. Ao longo do tempo, diferentes formas de conhecimento são transmitidas pela palavra e por práticas que atravessam gerações, transformando-se à medida que encontram novos contextos. A arte participa desse processo ao criar formas capazes de preservar, deslocar e reinventar aquilo que é herdado, fazendo da memória uma experiência dinâmica e em constante elaboração. Nesse sentido, a transformação da matéria e a construção de figuras fabulosas podem abrir outras maneiras de perceber o mundo e imaginar possibilidades de existência.
É a partir dessa perspectiva que as obras de Diambe e Tunji Adeniyi-Jones se aproximam. Suas pesquisas encontram na ancestralidade não apenas referências históricas, mas também experiências de deslocamento e produção de imaginários, nas quais diferentes coreografias, do corpo, da matéria e da imagem, tornam-se instrumentos de continuidade e de invenção de futuros.
Ao reconhecer a pluralidade das experiências da diáspora africana, a exposição aproxima práticas que fazem da fabulação uma forma de criação e elaboração de outras possibilidades de existência. Os trabalhos revelam a capacidade da arte de reconfigurar imaginários e produzir espaços de memória, presença e renovação, nos quais aquilo que é herdado pode ser continuamente reelaborado e projetado em direção ao futuro.
Nas esculturas de Diambe, a matéria é entendida como elemento ativo na construção de corpos e ambientes. O uso de matérias orgânicas, como raízes alimentares e cera de abelha, aproxima sua produção de processos de transformação e de relações de interdependência entre diferentes formas de vida. O bronze aparece na finalização das obras, conferindo solidez às formas, que remetem a organismos, corpos e elementos naturais em constante processo de metamorfose. Em trabalhos recentes, formas reconhecíveis de povos diaspóricos são reorganizadas em novas configurações, mimetizando outros seres e dando origem a criaturas que integram uma natureza fabulativa, autônoma e em permanente movimento.
Nesse processo, Diambe amplia a noção tradicional de escultura ao incorporar princípios da coreografia. Suas formas não são pensadas como objetos isolados, mas como elementos que estabelecem relações entre corpo, espaço e movimento. O gesto torna-se, assim, uma maneira de ativar a matéria e produzir novas relações, fazendo da escultura um campo de transmissão, invenção e continuidade.
Nas pinturas de Tunji Adeniyi-Jones, os corpos se articulam em composições marcadas pelo movimento, pela repetição e pela relação entre figura e ambiente. Seus personagens, atravessados por referências mitológicas e culturais, ocupam o espaço pictórico como figuras em transformação, sugerindo uma dimensão coreográfica que se constrói na superfície da tela.
Nascido no Reino Unido e atualmente radicado nos Estados Unidos, o artista desenvolve sua prática a partir do que descreve como “adição, combinação e colaboração cultural”, articulando referências à história antiga da África Ocidental e à mitologia iorubá com experiências formadas em diferentes contextos culturais. A diáspora aparece não apenas como contexto histórico, mas como campo de circulação e recomposição de referências, no qual memórias, símbolos e imaginários são deslocados, sobrepostos e reinventados. Suas figuras não representam uma identidade fixa ou uma origem única, habitam um espaço entre diferentes temporalidades e geografias, no qual o pertencimento se constrói por meio do encontro, da mistura e da continuidade. A pintura torna-se um território de fabulação diaspórica, onde aquilo que foi deslocado pode adquirir novas formas e produzir outros imaginários de existência.
A aproximação entre as práticas se estabelece na compreensão do corpo como uma estrutura dinâmica, capaz de produzir relações, deslocamentos e novas formas de presença. Se, na pintura, o gesto se inscreve na disposição das figuras, no ritmo das formas e na organização da composição, na escultura ele se manifesta na presença física da matéria e nas possibilidades de circulação e percepção do espaço. Mais do que representar o movimento, suas obras propõem diferentes modos de experimentá-lo.
A coreografia emerge, nesse contexto, como um princípio de organização da imagem e do espaço, uma linguagem capaz de articular corpo, matéria e imaginação. Entre a presença física da escultura e a mobilidade sugerida pela pintura, Tunji e Diambe entendem o gesto como uma força capaz de produzir outras formas de percepção, relação e pertencimento.
Luana Rosiello

