Não costumamos pegar um guarda-chuva quando o céu acorda limpo, mas convém desconfiar da calma do azul. De repente, mesmo quando o sol ainda brilha, algumas gotas atravessam as nuvens e caem sobre nós, como se o céu tivesse decidido sussurrar água em meio à luz. Há quem explique o fenômeno: pode ser a chamada chuva solar, ventos de uma tempestade distante que carregam gotas errantes até um lugar onde não havia nuvens. Mas também há quem prefira outra narrativa. Histórias que carregam lendas e mitos de origem popular, frequentemente enraizados em culturas orientais e nas crenças de vilarejos e cidades. Acredita-se que tais expressões tenham surgido como formas de atribuir sentido – muitas vezes por meio do imaginário místico ou sobrenatural – a acontecimentos que pareciam escapar à compreensão cotidiana, como certos fenômenos naturais e casualidades do mundo.
No folclore japonês, diz-se que, quando há chuva com sol, as raposas estão à solta. O kitsune no yomeiri (狐の嫁入り) é uma procissão silenciosa de kitsunes que atravessa o dia, iluminada por uma longa fileira de kitsunebi que se estendem por uma vasta área. A dialética entre o sol e a chuva evoca o encontro de opostos na natureza: forças contrárias que coexistem e se completam, gerando equilíbrio e renovação. Esse fenômeno atravessa imaginários tanto no Ocidente quanto no Oriente, carregando uma rica constelação de significados. É justamente entre essa imbricação que Mika Takahashi opera, traduzindo a tensão da natureza e poética com delicadeza e precisão na mostra Chuva solar.
É entre a impermanência e a fabulação que Mika desenvolve sua mais recente pesquisa pictórica, experimentando o mundo por meio dos sentidos e dos sonhos. A artista parte da ficção como modo de se aproximar de diferentes realidades, entendendo o inconsciente não como fuga, mas como ferramenta de investigação e sensibilidade. Nesse percurso, a fabulação ultrapassa a dimensão da pesquisa literária e se afirma como gesto de criação, uma abertura para mundos possíveis.
Em suas pinturas, imagens, atmosferas e ritmos cromáticos parecem emergir como fragmentos de narrativas em formação, sugerindo paisagens instáveis, organismos em transformação ou fenômenos ainda sem nome. A pintura torna-se, assim, um campo de experimentação onde percepção, memória, sonho e imaginação se entrelaçam. É nesse espaço intermediário, entre o visível e o intuído, que a artista constrói um território poético no qual diferentes camadas de realidade coexistem, expandindo as formas de ver, sentir e fabular o mundo.
Como pessoa nipo-brasileira sansei, sua ancestralidade, constitui um ponto de partida fundamental para sua pesquisa, a partir do qual, nesta fase, investiga como a cultura japonesa encontrou na tradição da contação de histórias uma forma narrativa, poética e mística de dar sentido a fenômenos muitas vezes inexplicáveis. Preservar traços folclóricos e a representação de universos é uma maneira de valorizar uma espécie de essência singular da japonicidade, de enfatizar um lugar isento da modernidade ocidental e é desse lugar que Mika extrai sua força.
Em Ritual (2026), o kitsune no yomeiri aparece de forma nebulosa. O espectador contempla a cena como que de forma proibida, igual ao menino no filme Sonhos (1990), do cineasta japonês Akira Kurosawa. Ele, cheio de curiosidade, vê surgir uma misteriosa bruma e se esconde atrás de uma árvore. Desta névoa sai uma procissão de raposas desconfiadas. Elas andam a passos lentos, sempre olhando para ver se flagram algum incauto curioso. Após ser flagrado, ele precisa conquistar o perdão das raposas, mas tudo não passa de um sonho. Kurosawa mostra que também é capaz de adotar uma perspectiva surrealista para compor sua obra, presenteando o espectador com narrativas que vieram diretamente do seu inconsciente. Da mesma forma, Mika projeta uma camada expandida de comunicação: nela, a fábula emerge como potência criativa e narrativa, operando em diferentes níveis de elaboração e percepção de uma realidade que se revela, simultaneamente, abstrata e sensível.
Mika faz referência ao kakemono (?物), elemento ornamental da tradição japonesa. Historicamente associados à recepção e à hospitalidade, esses elementos compõem ambientes domésticos e cerimoniais como forma de dar boas-vindas aos visitantes. No imaginário oriental, os kakemono também podem apresentar representações de yōkai, cenas do teatro kabuki ou ilustrações de narrativas e contos antigos. Esse tipo de pergaminho - geralmente uma pintura vertical ou caligrafia realizada sobre papel de seda ou tecido - é fixado em um suporte flexível que permite ser enrolado para armazenamento.
Ao dialogar com essa tradição, Mika a ressignifica, operando a partir de um viés contemporâneo e regional, firmando sua identidade ao explorar a ambiguidade entre o passado e o presente, e é nesse deslocamento que sua produção revela um dos tributos mais sensíveis à dimensão ancestral da narrativa, entre herança cultural e reinvenção. A tradição surge, assim, como um repertório fixo e um campo vivo de deslocamentos e traduções, no qual referências se transformam ao atravessar diferentes tempos, territórios e gerações. É nesse movimento que sua produção faz emergir camadas de memória que persistem, ainda que de maneira sutil e abstrata. Seja na atmosfera do sonho ou no uso do estrangeirismo como ferramenta de criação, capaz de tensionar pertencimento e distância, sua prática constrói um espaço onde o imaginário opera de forma quase fabular. Talvez sejam as raposas, afinal, que fazem chover enquanto o sol permanece aceso, articulando uma zona de indeterminação na qual natureza e fabulação deixam de se opor.
Luana Rosiello
1 Kitsune (狐) são raposas mágicas, conhecidas por sua alta inteligência, longevidade e capacidade de metamorfose, assumindo frequentemente a forma humana de mulheres. Associadas à divindade Inari, podem ser mensageiras benevolentes ou espíritos trapaceiros.
2 Kitsunebi (狐火) ou "fogo de raposa" é uma luz fantasma atmosférica que aparece em lendas do folclore japonês.
3 Sansei (三世) refere-se à terceira geração de imigrantes japoneses, especificamente os netos dos imigrantes originais (Issei) nascidos fora do Japão.
4 Yōkai (妖怪) são criaturas, espíritos, monstros ou fenômenos sobrenaturais do folclore japonês, variando entre malévolos, travessos ou benevolentes.
5 Kabuki (歌舞伎) é uma forma de teatro tradicional japonesa com mais de 400 anos, conhecida pela sua estilização dramática, maquiagem elaborada, trajes exuberantes e atuações masculinas, mesmo para papéis femininos.

