Giulia Bianchi: entre mundos
É preciso que algo desapareça para que outras possibilidades possam ser vistas. Quando a luz recua, o mundo não se apaga: apenas deixa de se oferecer da maneira como estamos acostumados a percebê-lo. Na escuridão, seja de uma mata ou de um oceano, formas, cores e presenças emergem segundo outras lógicas. Há seres que produzem luz, outros que a refletem, absorvem ou percebem em frequências que nossos olhos não alcançam. É nesse limite da percepção, entre aquilo que vemos e tudo o que permanece invisível para nós, que habitam as pinturas de Giulia Bianchi, agora reunidas na Galeria Simões de Assis.
Mas de que mundo estamos falando exatamente? No início do século XX, Jakob von Uexküll propôs a ideia de Umwelt: cada organismo habita um universo perceptivo próprio, constituído por aquilo que seu corpo é capaz de captar e reconhecer. Uma flor não é a mesma para nós e para uma abelha; assim como a noite ou uma floresta não existem da mesma maneira para todos os seres que as habitam. Há frequências que não ouvimos, cores que não vemos, sinais que sequer sabemos reconhecer. Giulia parte dessa impossibilidade para criar suas pinturas, questionando o que acontece quando aceitamos que aquilo que chamamos de mundo é apenas uma entre muitas maneiras possíveis de captá-lo.
É entre um mundo e outro que suas pinturas nascem. A biologia chama esse entre de ecótonos, zonas de transição em que diferentes biomas se encontram, se atravessam e produzem formas particulares de existência. Nas telas de Giulia, no entanto, essa condição extrapola a geografia para se tornar um modo de construir imagens e cenas. Moreias convivem com orquídeas; raízes aéreas avançam sobre ambientes que poderiam pertencer ao fundo do mar; ostras encontram galáxias; cavernas podem se confundir com florestas e, por vezes, aquilo que parece subaquático também poderia ser celeste. Mar, terra e céu deixam de constituir territórios estanques. Giulia cria seus próprios ecótonos: paisagens de passagem nas quais espécies, ambientes e escalas perceptivas se contaminam, fazendo da pintura um lugar entre mundos.
Esse entre não se estabelece apenas entre paisagens, mas também entre espécies. Desde trabalhos anteriores, o olhar de Giulia vem se deslocando dos objetos para seres não humanos — frutos, vegetais, animais, minerais — e, pouco a pouco, daquilo que eles oferecem aos nossos sentidos para a possibilidade de reconhecê-los como sujeitos.
A aproximação de suas pinturas, esse olhar que recorta, amplia e por vezes torna desafiador distinguir onde começa uma espécie e termina outra, parece produzir uma suspensão das hierarquias. O humano deixa de ocupar o centro da imagem. Em seu lugar, surge uma trama de existências que não estão ali apenas para serem observadas, mas que parecem também nos devolver o olhar.
É nesse deslocamento que a pesquisa de Giulia se aproxima do animismo. Não como tentativa de atribuir características humanas aos outros seres, mas, como possibilidade de reconhecer neles formas próprias de existência, percepção e agência. Animais, plantas e minerais não ocupam mais a paisagem como elementos passivos ou como objetos disponíveis ao olhar humano. Há algo que lhes pertence e que permanecerá, inevitavelmente, inacessível a nós. Talvez por isso Giulia não procure decifrá-los por completo. Ao aproximá-los, ampliá-los, fragmentá-los ou fazê-los conviver em situações improváveis, sua pintura preserva uma zona de indeterminação. Olhar para o outro, aqui, significa admitir que há nele um mundo que existe para além de nós.
Talvez seja por isso que reconhecer nunca seja suficiente diante dessas pinturas. Uma moreia pode se aproximar de uma serpente; a superfície de uma caverna, de uma paisagem; as marcas de um animal encontram correspondências nas manchas da terra. A figura está presente, mas parece sempre prestes a escapar daquilo que a nomeia. Giulia fala de um interesse por correspondências, por perceber como uma forma reaparece em outra. Entre figuração e abstração, essas aproximações fazem com que as categorias se tornem instáveis: animal, vegetal, mineral e paisagem compartilham formas, ritmos e superfícies. É nessa perda de coordenadas que a luz adquire outra função no trabalho de Giulia. Ela não ilumina a cena para torná-la mais legível, como tantas vezes fez na história da pintura. Ao contrário, surge da própria indeterminação: cintila, irrompe, aparece em meio à escuridão sem necessariamente dissipá-la. Assim, Giulia não procura iluminá-los por completo. Deixa que algo permaneça fora de alcance, preservando o mistério e a alteridade daquilo que encontra. Seus mundos surgem nesse intervalo: no instante em que nossos olhos deixam de ser a medida de todas as coisas e outras possibilidades de existência começam a aparecer.
Ana Carolina Ralston

