Maverick da Abstração¹

 

Esta exposição reúne obras não figurativas de Cícero Dias, elétron livre da arte abstrata na América Latina, um de seus iniciadores no continente e o primeiro brasileiro a praticá-la. No início da década de 1940, sua figuração se dissolve em direção a abstrações líricas, um caminho no qual ele se concentra depois de se estabelecer em Lisboa em 1942, fugindo da França tomada pelos nazistas. É um fato notável se pensarmos que no Brasil foi preciso esperar a década de 1950 para nascerem primeiro o concretismo e depois o movimento neoconcreto. Mas não se trata apenas do Brasil. Se observarmos o contexto geral na América Latina, vemos que o concretismo argentino, liderado por Tomás Maldonado com a Asociación Arte Concreto-Invención, e o movimento Madí, fundado por Carmelo Arden Quin e Gyula Kosice, apenas se adiantam um pouco aos seus pares brasileiros, pois surgem em meados da década de 1940. Embora o uruguaio Joaquín Torres García lance seu Universalismo Construtivo em 1929, sua pintura e escultura, apesar da ênfase geométrica, nunca deixam completamente de lado a figuração. Apenas o guatemalteco Carlos Mérida antecipa-se a Dias, ao criar suas primeiras obras abstratas em 1939 no México.

Não pontuei a situação anterior como uma competição entre quem chegou primeiro, mas para situar Dias como um maverick da arte abstrata em nosso continente. Não só porque sua órbita foi independente de movimentos ou processos artísticos particulares, mas porque, de modo geral, na América Latina a arte não figurativa – tanto geométrica quanto lírica e expressionista – é sobretudo um fenômeno dos anos 50, década de auge da abstração em todo o mundo, quando também se consolida a obra geométrica de Dias, conforme podemos apreciar nesta mostra. Vimos que então se estabelecem os movimentos concretos no Brasil e desde um pouco antes na Argentina. A maturidade do Universalismo Construtivo de Torres García também tem lugar nesses anos, com artistas como José Gurvich e José Cúneo. Na década surge com grande força a arte óptica e cinética na Venezuela, lideradas por Jesús Rafael Soto, Carlos Cruz-Diez e Alejandro Otero, além de outras poéticas abstratas, como em Elsa Gramko, Mercedes Pardo e os inícios de Gego. No México, a Generación de la Ruptura usa a abstração, entre outras poéticas, para enfrentar com sucesso o muralismo – tão fortemente estabelecido – com artistas como Manuel Felguérez, Gunther Gerzso e Vicente Rojo. Também nos anos 50 destacam-se em Cuba o pioneiro Sandú Darié e Loló Soldevilla, que integraram o Grupo Diez Pintores Concretos, e o Grupo de los Once, com expressionistas abstratos como Raúl Martínez, Guido Llinás e Antonio Vidal. A cubana Carmen Herrera, outro "elétron livre", cria suas primeiras obras não figurativas em Paris em 1948 e define sua obra precursora do minimalismo nos anos seguintes em Nova York.

É certo que o caráter precoce da obra não figurativa do brasileiro foi condicionado por viver e trabalhar na Europa desde 1937, onde fez parte da Escola de Paris. A partir de 1945 esteve vinculado ao Groupe Espace e à Galeria Denise René, centro da arte construtiva na França. Mas, embora tenha residido lá a maior parte de sua vida, o artista nunca perdeu o contato com seu país de origem, para onde viajou com frequência. No Brasil trabalhou muito e criou obras maiores, como os primeiros murais abstratos feitos na América Latina. Pintados no Recife em 1948, são muito significativos por romper com a tradição realista do muralismo mexicano generalizada nas Américas. Existe um reconhecimento geral entre críticos e historiadores da arte de que seu Brasil de origem e formação, e mesmo seu natal Pernambuco, sempre estiveram presentes no interior de sua obra, como bases culturais e emotivas que a condicionaram. O título de sua pintura monumental de 1931 Eu vi o mundo… ele começava no Recife, que faz alusão ao seu local de nascimento, pode definir toda a trajetória de Dias. Obra maior, pintada quando ainda não havia saído do Brasil, seu feliz título resultou uma premonição, e uma declaração poética, do que seriam sua vida e sua obra. Se chamei Dias de elétron livre, poderíamos dizer que a única coisa que o amarrava um pouco era o Brasil.

Salvo pela série das Entropias, que não se incluem, a exposição nos permite vislumbrar um esboço da evolução da pintura abstrata do artista, que quase sempre coabitou com seu trabalho figurativo, algo bastante singular e heterodoxo. A obra Composição, da década de 1940, mostra a transformação de sua figuração inicial para uma abstração lírica onde, no entanto, emergem formas geométricas e hard edge que se correspondem com as obras completamente geométricas que aparecem mais adiante nessa década. Diante do barroquismo e da aglomeração de representações figurativas em sua pintura dos anos 30 – que é como sonhar borgianamente um sonho delirante de Chagall em Pernambuco –, é difícil imaginar como Dias pôde se livrar desse povoado universo figurativo para dar lugar ao abstrato. Essa transição é perceptível em duas obras sem título da década de 1940 na mostra, que são também um exemplo de por que Charles Estienne afirmou que a originalidade de Dias era buscar a essência concentrada da vida vegetal, não pela cor, mas pelas formas, ainda que fossem geométricas.

Dentro da mostra encontramos até um quadro típico de um "retrocesso" no caminho abstrato do artista, que ocorreu em meados dos anos 40: Afinidade Vegetal, de 1946. Esta pintura faz parte de umas abstrações realizadas então, onde se notam ecos de Kandinsky e que, paradoxalmente, possuem referências figurativas e colorísticas ao Recife, sobretudo vegetais. Quem sabe se esse hiato semifigurativo se deva talvez a um ataque de saudade que Dias sofreu refugiado em Lisboa, e se impôs sobre seu trabalho geométrico, que continuou fazendo depois. Vemos isso em Esplendor, 1946, uma obra luminosa que faz pensar na exclamação de Oswald de Andrade de que a sala de sua casa se iluminou de repente ao pendurar um quadro de Dias, feito como "de pura luz".

É interessante notar, no conjunto de obras que se reuniu, a interação – e por vezes a luta – entre abstração lírica e geométrica própria de seu trabalho. Assim, formas entre orgânicas e concretas em Terra Chã e em outra pintura da década de 1940 trazem à tona aquele asserto de Antoni Tàpies: "Aquele que descobrir uma forma que não seja nem orgânica nem geométrica terá dado um grande passo". Um passo aparentemente impossível, mas que se pressente na liberdade morfológica do brasileiro. É curioso que outros elementos da complexa e muito peculiar composição do quadro parecem antecipar as bandeirinhas que Alfredo Volpi começa a pintar na década de 1950. Em O Abismo da Verdura as formas são já por completo – embora suavemente – geométricas, se bem que as duas grandes curvas que estruturam o quadro remetem ao barroquismo, às vezes subterrâneo, do artista.

O coração da mostra são as pinturas plenamente geométricas dos anos 50 e início dos 60. São os trabalhos mais rigorosos e depurados de Dias – que, no entanto, insisto, sempre foi barroco à sua maneira –, a ponto de que em um par de quadros alguns elementos traçam uma espécie de moldura pintada, o que não impede que outras formas a transponham integrando-se a ela. Como evidência da expressão do Brasil interiorizado no labor do artista, Mário Pedrosa assinalou em 1948 suas "cores cantantes", sua "luz vigorosa" e as "formas que se movem no espaço". Tudo isso aparece na obra concreta, que se prolongará até o fim de sua vida, particularmente pela dinâmica dos elementos geométricos, impecavelmente puros, mas distantes da frieza matemática e da calma minimalista. Por isso suas pinturas pressagiam as danças dos metaesquemas de Hélio Oiticica, e se relacionam com a obra inicial de Lygia Pape.

Poderíamos nos perguntar se Dias foi um neoconcreto sine nomine, sem identidade, antecipado e autônomo, relacionado indiretamente ao menos com o neoconcretismo inicial, que começou como um concretismo novo, diferente, mais livre e aberto. As composições dos quadros geométricos de Dias giram em espiral como volutas barrocas, articulando diagonais aguçadas, penetrantes. Suas geometrias chegam a dançar mais do que as de Oiticica, soltas por completo no espaço pictórico de seu mural de 1991 na Estação Brigadeiro do metrô de São Paulo. Pedem mais um "olho-corpo" do que um "olho-máquina" racionalista. Fogem das "ordenações geométricas", como dizia Alejo Carpentier da arte barroca. E é que toda a obra de Dias se encaixa naquela proclamação feita pelo escritor e por José Lezama Lima do barroco como cânone da cultura da América Latina, "continente de simbiose, de mutações, de vibrações, de mestiçagens", nas palavras de Carpentier que poderiam ser aplicadas à obra de Cícero Dias. Uma obra em movimento, que nunca podia ficar parada.

 

Gerardo Mosquera

 


¹ Maverick, termo de origem inglesa, é associado à liberdade. Refere-se a uma pessoa independente, com opiniões próprias, de mente aberta, que se recusa a seguir regras estabelecidas, normas do grupo ou o pensamento convencional.

 

Sem Título [Untitled]

óleo sobre tela

94 x 130 cm

Les Villes Jumelles, 1946

óleo sobre tela

65 x 81 cm

Sem Título [Untitled], 1948

óleo sobre tela

76 x 100 cm

Musicalidade, década de 1940 [1940's]

óleo sobre tela

73 x 92 cm

Composição IV, 1943 - 1951

óleo sobre tela

97 x 130 cm

Sem Título, década de 40 [Untitled, 1940s]

óleo sobre tela

100 x 81 cm

Sem Título [Untitled], 1951

óleo sobre tela

115 x 73 cm

Composição, década de 40 [Composition, 1940's]

óleo sobre tela

60 x 73 cm

Sem Título, década de 1940 [Untitled, 1940's]

óleo sobre tela

74 x 93,5 cm

Composition, 1950

óleo sobre tela

100 x 81 cm

Incidence, 1953

óleo sobre tela

116 x 73 cm

Sem Título, década de 60 [Untitled, 1960's]

óleo sobre tela

92 x 73 cm

Sem título, década de 50 [Untitled, 1950's]

óleo sobre tela

100 x 81 cm

Constant, 1962

óleo sobre tela

92 x 73 cm

Étendue, década de 60 [1960's]

óleo sobre tela

100 x 81 cm

Sem Título, década de 60 [Untitled, 1960's]

óleo sobre tela

73 x 60 cm

Voisinage, 1964

óleo sobre tela

100 x 81 cm

Sem Título [Untitled], 1950s

óleo sobre tela

73 x 60 cm

Immobile, 1958

óleo sobre tela

92 x 73 cm

Angles, década de 1960 [1960's]

óleo sobre tela

116 x 73 cm

X
ID: 20
Sem Título [Untitled]
óleo sobre tela
94 x 130 cm





X
ID: 21
Les Villes Jumelles, 1946
óleo sobre tela
65 x 81 cm





X
ID: 22
Sem Título [Untitled], 1948
óleo sobre tela
76 x 100 cm





X
ID: 23
Musicalidade, década de 1940 [1940's]
óleo sobre tela
73 x 92 cm





X
ID: 24
Composição IV, 1943 - 1951
óleo sobre tela
97 x 130 cm





X
ID: 25
Sem Título, década de 40 [Untitled, 1940s]
óleo sobre tela
100 x 81 cm





X
ID: 26
Sem Título [Untitled], 1951
óleo sobre tela
115 x 73 cm





X
ID: 27
Composição, década de 40 [Composition, 1940's]
óleo sobre tela
60 x 73 cm





X
ID: 28
Sem Título, década de 1940 [Untitled, 1940's]
óleo sobre tela
74 x 93,5 cm





X
ID: 29
Composition, 1950
óleo sobre tela
100 x 81 cm





X
ID: 30
Incidence, 1953
óleo sobre tela
116 x 73 cm





X
ID: 31
Sem Título, década de 60 [Untitled, 1960's]
óleo sobre tela
92 x 73 cm





X
ID: 32
Sem título, década de 50 [Untitled, 1950's]
óleo sobre tela
100 x 81 cm





X
ID: 33
Constant, 1962
óleo sobre tela
92 x 73 cm





X
ID: 34
Étendue, década de 60 [1960's]
óleo sobre tela
100 x 81 cm





X
ID: 35
Sem Título, década de 60 [Untitled, 1960's]
óleo sobre tela
73 x 60 cm





X
ID: 36
Voisinage, 1964
óleo sobre tela
100 x 81 cm





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ID: 37
Sem Título [Untitled], 1950s
óleo sobre tela
73 x 60 cm





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ID: 38
Immobile, 1958
óleo sobre tela
92 x 73 cm





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ID: 39
Angles, década de 1960 [1960's]
óleo sobre tela
116 x 73 cm





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