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Jorge Guinle em diálogo: Mira Schendel

Jorge Guinle em diálogo: Mira Schendel

31/07/2020 até 01/08/2020

"Existem 3 fases do meu trabalho; 1º é o próprio acontecer da coisa como ela acontece a mim, depois há o momento do encontro do trabalho com outro e o 3º momento que quando era mais jovem não era importante, mas que se tornou mais importante porque me tornei mais realista, é o trabalho ter uma circulação em termos econômicos, para sustentar o próprio trabalho."

O apartamento ensolarado de Mira parece um reduto de Bauhaus: espartano, porém simples e confortável. Respira-se um ar de lógica e ao mesmo tempo de afabilidade. Conversamos muito antes de iniciar a nossa entrevista. À medida que a entrevista se desenrolava, Mira desengavetava várias pastas com desenhos e gravuras de fases diferentes. No final, Mira sempre afetuosa, riu muito com o neto recém-nascido, que acabara de chegar.

 

[Jorge Guinle/Interview] Mira, esta entrevista depois da nossa conversa, visa conhecer melhor teu trabalho. Eu tive muita sorte porque num dia de 63 quando visitava o Museu de Arte Moderna, entrei numa sala e vi uma linha com vários papéis de arroz pendurados de um lado ao outro. Na parede tinha uns 30 desenhos muito frágeis, algumas linhas traçadas tenuamente. Nunca tinha visto trabalho igual. Isto me causou um impacto muito grande. Depois fiquei muitos anos, 10 a 15, sem ver teu trabalho, Mira. Mas a experiência visual que se gravou na minha memória foi de ter visto uma coisa muito frágil e tênue, quase no limiar do ser e do não ser.

[Mira Schendel] Uma coisa ambígua, Jorge.

[JG] Ambígua. Foi uma experiência visual muito forte na minha adolescência, da qual me lembro muito bem. É formidável a gente se encontrar aqui, anos depois, em São Paulo e começar de novo a entrar no seu mundo, a ver os novos trabalhos e os mais antigos e agora fazer um balanço, o perfil de todo o seu mundo artístico e poético. Sentir todas as várias influências, culturas, épocas diferentes que se cruzam no seu trabalho. Essa energia que vem tanto da arte tântrica, quanto de um desenho zen feito por um monge inspirado, do concretismo, do Klee. E este acúmulo de experiências é colocado num espaço abstrato da maneira mais simples possível.
[MS] 
Bem, eu queria te fazer uma pergunta. Quando você, não sei se você se lembra pois era muito menino naquela época, quando você entrou na sala, a sala estava vazia? Não tinha ninguém certo?

[JG] Sim, estava vazia.

[MS] Porque foi assim, uma piada aquela exposição 63 no MAM do Rio. Quando cheguei na exposição, depois de tê-la montado, não estava alma viva, estava vazia, todo mundo tinha corrido para uma outra sala, lá perto tinha outra exposição. A minha estava vazia. Todo aquele branco. Estava assim. Era uma coisa impressionante. Era todo branco, todo vazio. Depois chegou de uma amiga aqui de São Paulo, um bouquet de rosas vermelhas. Para mim esperava que aquelas rosas vermelhas naquele branco fizessem que alguém aparecesse. Apareceu, vez ou outra aparecia alguém. Mas no fundo era como se desse uma rosa vermelha àquele branco. Uma coisa impressionante.

[JG] E as gravuras incorporando letras do alfabeto?

[MS] Bem, já estavam no trabalho em papel japonês que também comecei em 64: foi ali que comecei a fazer as letras. Depois fiz acrílicos transparentes para a Bienal de Veneza.

[JG] Só que estes desenhos são de uma complexidade de signos que contrariam o significado qualquer que poderia se formar a partir deles, ao contrário da poesia concretista. É quase um diálogo entre duas escolas: a concretista pela apresentação do texto – poesia e de uma poesia mais intimista, pelo emaranhado de significados que cancelaria a elucidação deles. (Passando para outro grupo de desenhos numa pasta diferente) Agora, vamos falar da cor aqui nesta última série. Estas aquarelas estão banhadas de cor, existe uma saturação da cor. Você atinge o papel até o limite, lembra as aquarelas do Nolde, ou as telas do Rotko, algo crepuscular, e o último raio de sol parece pousar nas flechas douradas, a despedida de Aquiles. Você cria um espaço próprio para cada série de desenhos, trabalhando sempre em oposições que guardam, no entanto, que permitem uma visibilidade imediata: que pode até enfraquecer a leitura mais complexa da obra. Mas isso talvez seja o destino das obras de arte, simples em apresentação, mas ricas em ideias. Para uma pessoa captar a sua mensagem, é necessário que ela carregue uma bagagem cultural, digamos que seja familiarizada com a cultura japonesa, por exemplo.

[MS] Agora para mim é muito difícil falar do meu trabalho, porque realmente, se eu pudesse falar ou escrever, eu acho que eu não pintaria ou desenharia. Realmente, para mim, falar do meu trabalho é muito difícil, achar palavras certas para expressá-lo em sua totalidade.

[JG] E os trabalhos em acrílico? (Apontando para vários trabalhos em acrílico. Um representava uma linha no espaço, o outro uma chapa de acrílico com letras dos dois lados, o terceiro um circulo no espaço, feito de rodelas, onde a letra O ou Zero vai se esvanecendo de rodela em rodela).

[MS] Esta eu mandei para a Bienal de Veneza em 68, a outra para a Bienal de São Paulo em 67. Aqui, (apontando para o círculo), há o problema da transparência, do dentro e do fora, o dentro e o fora ao mesmo tempo, como sujeito e objeto são os mesmos, o côncavo e o convexo são juntos, sente-se assim a temática da transparência. O espelho é simétrico e a transparência não é.

Existem 3 fases do meu trabalho; 1º é o próprio acontecer da coisa como ela acontece a mim, depois há o momento do encontro do trabalho com outro e o 3º momento que quando era mais jovem não era importante, mas que se tornou mais importante porque me tornei mais

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#JorgeGuinleEmDiálogo apresenta trechos de entrevistas realizadas por Jorge Guinle para a Revista Interview. Fundada por Andy Warhol em 1969 nos EUA, a revista tinha como marca registrada uma abordagem despojada com entrevistas com pouca ou quase nenhuma edição. Para a versão brasileira, Guinle colaborou entre os anos de 1979 e 1982, entrevistando nomes como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel, entre outros. Estas trocas para a Interview estimulam a percepção do espectador frente ao objeto artístico e pesquisa de cada artista.

Fonte: https://mailchi.mp/simoesdeassis/interview_mira-schendel



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